Estão deitados lado a lado. Ele tem o cabelo negro, como a noite, sempre em permanente desalinho. Veste umas calças de fato de treino coçadas, combinadas com uma t-shirt em igual estado de conservação. O cabelo dela tem o mesmo tom e chega-lhe pelo queixo. Enverga umas calças de ganga velhas e uma camisola alusiva aos desenhos animados em voga. Ele tem dez anos, ela oito. Depois do esforço que foi escapar aos cuidados da avó, os dois pequenos guerreiros descansam sobre uma pilha de fardos, que lhes permite comtemplar o mundo das alturas. No entanto, nenhum deles o observa. Os olhos estão fixos no azul do céu daquela tarde tépida de Primavera. Um azul pontilhado por pequenos farrapos de algodão. Cada farrapo tem uma história. Aqui temos um dragão cuspindo fogo, por certo está a defender a sua propriedade de algum cavaleiro afoito. Mas de repente o dragão desvanece-se, já não temos um dragão, temos um coelho que foge velozmente de algum perigo ainda oculto. Talvez da possibilidade de se tornar no almoço do próximo dia. Mais além está a face sorridente de uma idosa, tendo por perto o que poderia ser uma bola de futebol. Talvez um presente para o seu neto favorito. E ali adiante? Tenho a certeza que se trata de um colar mágico! Não sejas tonta! Não vês que é uma cobra, como a que eu usei para pregar aquela partida? Olha desapareceu! Agora só temos um circulo, redondo perfeito. Ideal para que o corajoso domador o aponte ao leão mais habilidoso. E antes que nos dessemos conta, desapareceu outra vez. A cada nova forma segue-se uma outra, a cada uma corresponde uma história ou então um pedaço da mesma história que vai sendo entrelaçada pelos fiapos da imaginação.
1.
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Passeio madrugador pelas ruas quase sem gente. Velhos de cartas na mão e
juventude amputada nos olhos debatem-se com a incerteza do dia da partida.
Uma...
Há 11 anos
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