Author: Patricia
•terça-feira, novembro 23, 2010

O príncipio base é um e um só – é mau. A razão é uma e uma só – falta o respeito. Mas o mau é tão mau, o mau está presente de tantas maneiras e em tantos locais, que já sentimos necessidade de o classificar, portanto temos:


1. O mau;

2. O muito mau;

3. O terrivelmente mau;

4. O malíssimo.

(Note-se que apresento alguma dificuldade em decidir o que é pior – o terrivelmente mau ou o malíssimo.)

Pois bem, depois de já terem lido algumas linhas provavelmente está na altura de se começar a perceber o que está em causa. Não vos vou fazer esperar mais – trata-se da traição.

Já dizia a bíblia – “não cobiçareis a mulher alheia”, a versão actual incluíria igualmente o “homem alheio”. Mas a verdade é que ao longo dos séculos a questão tem existido e vai continuar a existir, assim como continuam a existir mulher apedrejadas até à morte por acusações de traição.

Mas hoje a situação já assume tal contorno que diferentes níveis de mau são considerados. Noutro dia dei por mim a ouvir as preocupações de uma moiça acerca do namorado que poderá recorrer a prostitutas em casas de strip (“raparigas top por apenas 30€”) e pensei – ok, prostitutas nem sequer contam como traição, é apenas triste.

No dicionário priberam (ferramenta de valor de quem usa a internet diariamente, sem ter à disposição um corrector ortográfico) diz:

“traição

s. f.

1. Acto! ou efeito de trair.

2. Perfídia.

3. Entrega aleivosa.

4. Quebra aleivosa da fé prometida e empenhada.

5. Infidelidade conjugal.

6. Emboscada desleal; surpresa vil.

à traição: traiçoeiramente, aleivosamente.

Pelas costas, à falsa fé.”



(Para quem também não sabe, aleivosa vem do aleive, que pode significar calúnia).

Bem, de qualquer forma a traição soa mal, um pecado imperdoável para muitos. Pessoalmente desenvolvi uma teoria – a teoria dos 4 graus. Escutem (ou leiam):

No primeiro grau – o mau – inclue-se a traição de uma noite não recorrente. Pode decorrer do efeito stress pós discussão, de um copo (ou vários) a mais, de uma despedida de solteiro em paragens pecaminosas. É mau, mas o pecador, desde que devidamente arrependido, poderá (eventualmente) ser perdoado.

No segundo grau – o muito mau – inclui-se a traição com alguém que acaba por virar a nova relação. Está em causa envolvimento emocional, a primeira relação vai terminar, mas a traição foi honesta. Houve sentimentos, houve uma decisão de ficar com a nova pessoa que não decorreu antes de terminar com a primeira claro, mas sejamos realistas, nenhum adulto termina uma relação sem ter a certeza que a nova tem potencial.

No terceiro grau – o terrivelmente mau – inclui-se a traição de uma noite recorrente. Aqui o pecador mantém uma relação com a pessoa “certa”, mas vai-se envolvendo continuamente com outras pessoas porque assim é mais divertido. Este grau é o terrivelmente mau porque quem o faz não tem peso na consciência e jamais encontrará uma razão para parar de o fazer (a não ser que surja um caso de disfunção eréctil ou qualquer coisa do género – e mesmo assim não certo, porque o que está em causa é o jogo, a caça).

No quarto grau – o malíssimo – inclui-se a traição emocional recorrente. Este pecador é calculista, tem uma pessoa de quem gosta (ou será “gosta”?), mas independentemente disso envolve-se consecutivamente com outras pessoas, emocionalmente. Leva uma vida dupla, durante semanas, meses, anos. Pode fazer alguém acreditar que é especial, e até pode eventualmente ser, mas o respeito não faz parte da equação. E o planeamento torna a questão toda no mínimo desconfortável – ou malíssimo.

O que distingue os dois primeiros graus dos dois últimos? A culpa e a emoção. Podemos eventualmente perdoar o arrependido, podemos eventualmente perdoar alguém que agiu de cabeça quente ou que se deixou levar pelas emoções, mas não perdoamos quem o faz deliberadamente.

Niste tudo, o triste é que dou por mim a pensar, com tanto mau à solta, o mau ou o muito mau é do mal o menos.

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1 coisas que dizem por aí...:

On 23 de novembro de 2010 às 22:26 , Rita disse...

WTF? Genial!
Pior que tu só eu, que como já toda a gente sabe, só aturo os namorados das outras.Depois de ter relido várias vezes o teu texto, ainda não sei qual é o meu nível. Vou jogar ao malmequer com a tua teoria.